c.1 Conceito Bíblico do Estado Intermediário
A descrição bíblica dos crentes entre a morte e a ressurreição, esboçada pelas igreja reformadas (calvinistas) é que as almas dos centes, IMEDIATAMENTE após a morte, igressam nas glórias do céu. A Bíblia ensina que a alma do crente, quando separada do corpo, entra na presença de Cristo (II Co 5:8; Fp 1:23; Lc 23:43; II Co 12:3,4; II Co 5:1; Hb 12:22,23). É um estado no qual os crentes etão verdadeiramente vivos e plenamente conscinetes (Lc 16:19-31; I Ts 5:10); um estado de repouso e delicidade sem fim (Ap 14:13).
Quanto a descrição do estado dos ímpios, entre a morte e a ressurreição, a Confissão de Fé de Westeminster afirma que as almas dos ímpios, após a morte, “são lançadas no inferno, onde ficarão, em tormentos e em trevas espessas, reservadas para o juízo do grande juízo final” (Lc 16; Jo 3:17,18). Ora, se os justo entram em seu estado eterno imediatamente após a morte, a pressuposição é que isto é igualmente verdadeiro quanto aos ímpios também.
c.2 A doutrina do estado Intermediário na História
Nos primeiros anos da igreja cristã pouco se pensou num estado intermediário. A idéia de que Jesus voltaria como juiz fazia o intervalo parecer pouco importante. O problema surgiu quando se evidenciou que Jesus não voltaria imediatamente. Diz Addison: “durante muitos séculos, foi geralmente aceita a conclusão geral de que num hades subterrâneo os justos gozam certa medida de recompensa, não igual ao seu futuro céu, e os ímpios sofrem certo grau de puniçção, não igual ao seu futuro inferno. Este conceito foi defendido por homens como Justino Mártir, Irineu, Tertuliano, Novaciano, Orígenes, Gregório de Nyssa, Ambrósio e Agostinho. Na escola de Alexandria, a idéia do estado intermediário cedeu passo à de uma gradual purificação da alma, e isto, nos transcurso do tempo, preparou o caminho para a doutrina católica romana do purgatório. Porém, alguns apoiavam a idéia de que, na morte, as almas dos justos entravam imediatamente no céu, entre eles estavam Gregório de Nazianzo, Eusébio e Gregório, o Grande.
Na Idade Média a doutrina de um estado intermediário foi conservada e, em conexão com ela, a Igreja Romana desenvolveu a doutrina do purgatório. A opinião dominante era que o inferno recebia imediatamente as almas dos ímpios, mas que somente as dos justos que estivessem livres de toda mácula do pecado eram admitidas imediatamente na bem-aventurança do céu, para desfrutarem a visio Dei (visão de Deus). Os mártires eram geralmente contados entre os poucos favorecidos. Os que precisavam de ulterior purificação eram, segundo o conceito predominante, detidos no purgatório por um menor ou maior período de tempo, conforme o exigisse o grau de pecado restante, e eram purgados do pecado por meio de um fogo purificador. Outra idéia, que também se desenvolveu em conexão com a noção do estado intermediário, era a do limbus patrum (Limbo dos pais), onde os santos do velho testamento ficaram retidos até à ressurreição de Cristo. Os reformadores, sem exceção, rejeitaram a doutrina do purgatório e sustentavam que, os que morriam no Senhor ingressavam imediatamente na bem-aventurança do céu, ao passo que os que morriam em seus pecados desciam imediatamente para o inferno. Contudo, alguns admitiam uma diferença de grau entre a felicidade dos primeiros e o julgamento dos últimos, antes do juízo final, e sua felicidade e punição finais, depois do grande tribunal. Entre os socinianos e os anabatistas houve alguns que reviveram a antiga doutrina, sustentada por alguns da igreja primitiva, de que a alma do homem dorme desde a hora da morte até à ressurreição. A mesma noção é defendida por algumas seitas adventistas e pelos da aurora do milênio. Durante o século dezenove, vários teólogos, principalmente na Inglaterra, na Suíça e na Alemanha, abraçaram a idéia de que o estado intermediário é um estado de nova prova (ou de segunda oportunidade) para os que não aceitam a Cristo nesta vida; uma das doutrinas favoritas dos universalistas.
c.3 A construção Moderna da Doutrina do Sheol-Hades
i. Exposição da Doutrina: Predomina no presente a idéia de que a concepção veterotestamentária do sheol, à qual se supõe que a do hades do Novo Testamento corresponde, foi copiada da noção gentílica do mundo subterrâneo; ou seja, tanto os fiéis como os ímpios, ao morrerem, entram na lúgubre morada das sombras, na terra do esquecimento; não é um lugar de recompensas, nem de punição. Não está dividido em diferentes compartimentos para os bons e os maus, mas é uma região sem distinções morais. Um lugar de consciências enfraquecidas e sonolenta inatividade. Alguns defendem que o Velho Testamento apresenta este lugar como uma habitação permanente e outros que ele oferece uma esperança de fuga aos fiéis.
ii. Crítica a Essa Apresentação Moderna: É possível que a idéia dessa localidade separada, que não é céu nem inferno, na qual os mortos são reunidos e onde permanecem, ou permanentemente, ou até que ocorra alguma ressurreição comunal, fosse mais ou menos corrente no pensamento popular hebraico. Mas, dificilmente isso pode ser considerado, pelos que crêem na inspiração plenária da Bíblia, como um elemento dos ensinos positivos da Escritura, desde que contradiz francamente a apresentação escriturística segundo a qual os justos entram imediatamente na glória, e os ímpios descem imediatamente para um lugar de punição eterna. Além disso, podem ser feitas as seguintes considerações contra essa idéia:
* Nm 16:30; Sl 49:15; Ec 9:10; Is 5:14; Os 13:14. Esses escritores inspirados laboravam em erro quando falaram que tanto os justos como os ímpios desciam para o sheol? Pode-se dizer que houve um desenvolvimento da revelação a respeito do destino futuro do homem, e não temos motivos para duvidar de que neste ponto, como em muitos outros, aquilo que era obscuro, aos poucos foi ganhando definição e clareza; mas certamente isto significa que o verdadeiro resultou do desenvolvimento do falso.
* Se, conforme a exposição bíblica, o Sheol-hades é um lugar neutro, sem distinções morais, sem bem-aventurança por um lado, mas também sem positivo sofrimento por outro, lugar ao qual todos descem igualmente, como pode o velho Testamento falar da descida dos ímpios ao Sheol em termos de advertência, como o faz em diversas passagens (Jó 21:13; Sl 9:17; Pv 5:5; Pv 23:14)? Como pode a Bíblia falar da ira de deuis ardendo ali (Dt 32:22), e empregar o termo sheol como sinônimo de abaddon, isto é, destruição (Jó 26:6; Pv 15:11; Pv 27:20)? Alguns procuram escapar desta dificuldade concedendo o caráter neutro de sheol e supondo que este era concebido como um mundo subterrâneo com duas divisões, chamadas no Novo Testamento paraíso e geena, aquele sendo a habitação destinada aos justos, e esta, aos ímpios; mas essa tentativa só pode resultar em desapontamento; pois o Velho Testamento não contém nenhum vestígio de tal divisão.
* Se uma descida ao sheol fosse a sombria perspectiva do futuro, não somente dos ímpios, mas também dos justos, como poderíamos explicar as expressões de jubilosa expectativa, ou de alegria em face da morte, como as que vemos em Nm 23:10; Sl 16:9,11; Sl 17:15; Is 25:8 // I Co 15:54); Hb 11:13-16? O Novo Testamento fala muitas vezes sobre a felicidade consciente no estado desencarnado (Lc 16:23,25; Lc 23:43; At 7:59; II Co 5:1,6,8; Fp 1:21,23).
* Se a palavra sheol sempre denota região na qual descem os mortos, então o Velho Testamento, enquanto tem uma palavra para indicar o céu como a bendita habitação de Deus e dos santos anjos, não tem uma palavra referente ao inferno, o lugar de destruição e de castigo eterno. Mas Sheol às vezes é contratado com shamaym (céus) [Jó 11:8; Sl 139:8; Am 9:2].
iii. A Interpretação de Sheol-Hades Aqui Sugerida: Um estudo indutivo das passagens nas quais se encontram, logo dissipa a noção de que os termos sheol e hades são empregados sempre no mesmo sentido em que todos os casos podem ser traduzidos pela mesma palavras, seja mundo inferior, estado dos mortos, sepultura ou inferno. Shedd, Vos, Aalders e De Bondt, afirma que a palavra sheol nem sempre tem o mesmo sentido. Esta opinião merece preferência e se pode dizer o seguinte, a respeito dos seus diferentes sentidos.
* Nem sempre as palavras sheol e hades denotam uma localidade, na Escritura, mas muitas vezes são empregadas num sentido abstrato, para designar o estado de morto, o estado de separação de corpo e alma. Desde que tanto os crentes como os descrentes, ao término da sua vida, entram no estado de morte, bem se pode dizer, figuradamente, que eles estão, sem distinção, no sheol ou no hades. Observemos o paralelismo
* Quando sheol e hades designam uma localidade no sentido literal da palavra, referem-se, ou àquilo que geralmente denominamos inferno ou à sepultura. A descida ao sheol é apresentada como uma ameaça de perigo e como um castigo para os ímpios (Sl 9:17; Sl 49:14; Sl 55:15; Pv 15:11,24; Lc 16:23 [hades]). A advertência e a ameaça contidas nestas passagens ficarão completamente anuladas, se se conceber sheol como um lugar neutro para onde todos vão. Destas passagens também se infere que não pode ser considerado como um lugar de duas divisões. A idéia de um tal sheol dividido é copiada da concepção gentílica do mundo subterrâneo e não encontra suporte na Escritura. Enoque e Elias foram levados para cima, e não desceram a algum mundo inferior (Hb 11:5). Se a concepção bíblica da morte for compreendida em sua significação profunda, em sua significação espiritual, prontamente se verá que o sheol não pode ser a morada das almas dos crentes (Pv 5:5; Pv: 15:11; Pv 27:20). Há também diversas passagens nas quais sheol e hades parecem designar a sepultura (Gn 37:25; Gn 42:38; Gn 44:29; I Re 2:6; Jó 14:13; Sl 6:5; Ec 9:10). A sepultura é chamada de sheol pois é a ida pra baixo, que é relacionada com a idéia de destruição.
No Velho Testamento a palavra sheol é utilizada mais frequentemente no sentido de seputura e menos no de inferno, enquanto que no uso correspondente de hades no Novo Testamento dá-se o contrário.
c.4 A Doutrina Católica Romana
i. O Purgatório: de acordo com a igreja de Roma, as almas dos que são perfeitamente puros por ocasião da morte são imediatamente admitidos no céui e na visão beatífica de Deus (Mt 25:46; Fp 1:23); mas os que não se acham perfeitamente purificados, que ainda levam sobre si a culpa de pecados veniais e não sofrem o castigo temporal devido aos seus pecados - - e esta é a condição da maioria dos fiéis quando morrem - - têm que se submeter a um processo de purificação, antes de poderem entrar nas supremas alegrias e bem-aventuranças do céu. Em vez de entrarem imediatamente no céu, entram no purgatório.
O purgatório não é um lugar de prova (ou de segunda oportunidade), mas de purificação e de preparação para as almas dos crentes para apossar-se da felicidade da visão beatífica. A duração, como também a intensidade dos seus sofrimentos, variam de acordo com o grau de purificação ainda necessitado. Elas podem ser abreviadas e aliviadas pelas orações e boas dos fiéis na terra, e especialmente pelo sacrifício da missa. É possível que alguém fique no purgatório até ao dia do juízo final. Supõe-se que o papa tem jurisdição sobre o purgatório. É sua prerrogativa peculiar conceder indulgências, abrandar os sofrimentos purgatoriais e até acabar com eles. O principal apoio para esta doutrina acha-se
Esta doutrina romana não acha suporte nenhum na Escriturae, além disso, firma-se em várias premissas falsas, tais como:
* Que devemos acrescentar algo à obra realizada por Cristo;
* Que nossas boas obras são meritórias no sentido estrito da palavra;
* Que podemos realizar obras de supererrogação, obras que excedem o que o dever manda;
* Que o poder das chaves, que a igreja detém, é absoluto, num sentido judicial. Segundo esse poder a igreja pode encurtar, suavizar e até mesmo terminar os sofrimentos do purgatório.
ii. O Limbus Patrum: A palavra latina limbus (orla, borda) era empregada na Idade Média para denotar dois lugares na orla ou na borda do inferno, a saber, o Limbus Patrum (dos pais) e o Limbus Infantum (das crianças). Aquele era o lugar onde, segundo os ensinos de Roma, as almas dos santos do velho Testamento ficaram detidos, num estado de expectativa, até à ressurreição do senhor dentre os mortos. Supõe-se que, após sua morte, Cristo desceu ao lugar de habitação dos pais para livrá-los do seu confinamento temporário e levá-los em triunfo para o céu. Esta é a interpretação católica da decida de Cristo ao hades. O hades é considerado cmo um lugar de habitação dos espíritos dos mortos, tendo duas divisões, uma para os justos e a outra para os ímpios. A divisão habitada pelso espíritos dos justos era o Limbus Patrum, que os judeus conheciam como o seio de Abraão (Lc 16:23), e paraíso (Lc 23:43). Afirma-se que o céu não foi aberto para nenhum homem, enquanto Cristo não realizou concretamente a propiciação pelo pecado do mundo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário